12 de Dezembro de 2014

Dilema dos tempos modernos

O crescimento econômico tem trazido melhoras na nossa qualidade de vida?

Contra fatos, não há argumentos: o modelo econômico dominante e convencional de hoje, decorrente de sua acelerada expansão, verdadeira “máquina de produzir”, tem esgotado os recursos da Terra – fonte de “alimentação” da economia - mais rápido do que a natureza pode reabastecê-lo.

Os números não mentem: o que a economia mundial produz de PIB hoje, num espaço de um ano, equivale ao acúmulo de 2.000 anos de produção, razão pela qual, por exemplo, a economia global está 80 vezes maior que em 1800.

Num intervalo de apenas 40 anos, entre 1960 e 2000, a população mundial dobrou (de 3 para 6 bilhões) enquanto a economia cresceu seis vezes. De 1950 a 2000, o PIB mundial saltou de 4,5 trilhões de dólares para 50 trilhões de dólares. Em apenas 14 anos, de 2000 a 2014, o PIB mundial “engordou” mais 25 trilhões de dólares, chegando aos atuais US$ 75 trilhões.

De fato, essa extraordinária aceleração da atividade econômica não tem precedente histórico. Dessa situação específica emerge, no entanto, um dilema dos tempos modernos: como conciliar nossas aspirações (desejos de consumo) por uma boa vida, alcançando bem-estar (qualidade de vida) desejado por todos, diante dos recursos naturais limitados, dentro de um ambiente também limitado, visto que a economia “opera” dentro da biosfera, ainda que, mediante isso, haja considerável refutação por parte da economia tradicional?

Contudo, um fato é inexorável: não é mais possível um crescimento fora de controle, ferindo as fronteiras ecológicas, desrespeitando os limites da natureza, tendo em conta a total dependência da atividade econômica em relação ao sistema ecológico.

Para tanto, um rápido olhar sobre a história recente nos oferece como resposta que, os últimos 60 anos de atividade econômica respondem, sem espaço a dúvidas, por algumas ocorrências: 1) maior pressão sobre os estoques de água potável (um terço da população mundial vive em regiões com escassez de água, proporção que deve dobrar até 2015); 2) excesso de pesca nos oceanos (os cardumes de atum, por exemplo, estão dizimados; a pesca industrial já reduziu em 90% a população dos grandes peixes oceânicos); 3) acentuada mudança climática, fruto de ações antrópicas, amparadas na “necessidade” irreal de crescimento da economia; 4) Deterioração dos principais serviços ecossistêmicos, incluindo regulação do clima, tratamento do solo, do ar, dos nutrientes, entre outros.

Disso decorre uma das perguntas que ainda aguardam, sem sobressaltos, respostas por parte dos economistas tradicionais: como um sistema econômico de crescimento contínuo, amparado por políticas macroeconômicas específicas de crescimento, pode caber em um sistema ecológico finito?

A única resposta viável e plausível é, simplesmente, que não pode caber, tendo em conta aquilo que com bastante propriedade assevera Clóvis Cavalcanti: “crescimento significa necessariamente esgotamento de recursos, destruição de alguma coisa do meio ambiente”.
Logo, não é possível admitir que algo que cresça de forma exponencial (atividade econômica) dentro de algo limitado (meio ambiente) possa perdurar.

Se a economia cresce, sendo ela parte do planeta, do ecossistema global que não cresce, obviamente teremos, como produto final, menos meio ambiente, uma vez que a base de recursos da natureza estará, pois, comprometida.

É esse o dilema dos tempos modernos; reconhecer a impossibilidade de conciliar crescimento (físico) sem freios da economia num ambiente fechado e limitado, cercado de limites, como é o caso do sistema ecológico.

Por isso, talvez a pergunta que melhor se encaixa nessa temática seja a seguinte: qual é o tamanho ótimo da escala econômica que a natureza pode admitir?

Desse modo, de antemão, torna-se explícito reconhecer que a economia precisa ser vista como um subsistema do ecossistema, e não o contrário, como quer apregoar a economia convencional.

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