05 de Setembro de 2014

A vida e o universo

É preciso começar a repensar as ações humanas frente a biodiversidade

Somos “provenientes” de um longo processo biológico; somos “fruto” da biodiversidade. Em nosso corpo mantemos mais de 100 trilhões de células compartilhando átomos com tudo o que está ao nosso redor, enaltecendo assim a exuberância da vida. Somos, dessa forma, parte do universo.

Carl Sagan (1934-1996) asseverou que somos feitos do mesmo pó cósmico que se originou com a explosão das grandes estrelas vermelhas; somos do mesmo material que compõe uma estrela. Os átomos de carbono, nitrogênio e oxigênio em nossos corpos, assim como os átomos de todos os outros elementos pesados, foram criados em gerações anteriores de estrelas há mais de 4,5 bilhões de anos.

É incrível percebermos que em cada ser humano há mais seres vivos do que, por exemplo, a população mundial. Temos uma íntima relação com a biodiversidade: não é por mero acaso que no corpo de cada ser humano há mais ou menos 71% de água (a mesma porcentagem que há no Planeta Terra), nossa taxa de salinização do sangue (3,4%) é a mesma dos mares. Simplesmente, 60% do nosso corpo é oxigênio. Se incluirmos o carbono, hidrogênio e nitrogênio existentes em nosso corpo, temos então 95% da massa total do ser humano. De 92 elementos químicos existentes na natureza, 17 deles regulam todo o processo da vida.

Todos os seres vivos, incluindo, claro, o ser humano (cuja origem filológica vem de “húmus” que significa “terra fértil, fecunda”) são construídos a partir de um código genético comum (são 30 aminoácidos e quatro ácidos nucléicos). Acredita-se que há algo próximo a 100 milhões de diferentes espécies vivas (fauna, flora, microorganismos) dividindo esse mundo com a nossa espécie; embora atualmente estejam catalogadas apenas 1,4 milhão de espécies.

O biólogo e entomologista norte-americano Edward Wilson pontua que “num só grama de solo, ou seja, em menos de um punhado de terra, vivem cerca de 10 bilhões de bactérias, pertencentes a seis mil espécies diferentes”. Participamos ativamente dessa rica convivência biológica, numa verdadeira simbiose (“sim”, em grego, significa “junto” e “bio” é a própria vida).

Pela fotossíntese, as plantas, sob a luz do sol, decompõem o dióxido de carbono, “alimento” para elas, e liberam o oxigênio, “alimento” para a nossa vida e a dos animais. Com a participação do gás carbônico e da água, as plantas, nesse processo, produzem açúcares. A partir disso, outras substâncias são produzidas, como as proteínas e as gorduras que formam nossos corpos.

Igual importância reside nas estrelas, que além de iluminar as noites, tem a função de converter o hidrogênio em hélio e, da combinação entre esses gases, provém o oxigênio, o carbono, o nitrogênio, o fósforo e o potássio. Sem essa rica combinação não haveria os aminoácidos e nem as proteínas indispensáveis à vida. Pois isso tudo engloba a biodiversidade, esse termo cunhado pela biologia.

Absolutamente tudo o que for feito à biodiversidade, às diferentes espécies de vida, também será feito a nós, e nos atingirá. Agredir os ecossistemas, a biosfera (conjunto de todos os seres vivos, das amebas às baleias, das algas às árvores, dos vírus aos homens) é agredir à própria vida.

Lamentavelmente, ações antrópicas tem se dado de forma veemente no sentido da dilapidação do espaço-natureza. Estudos apontam que entre 1500 e 1850 foi presumivelmente eliminada uma espécie a cada dez anos. Entre 1850 e 1950, portanto, em cem anos, eliminou-se uma espécie por ano. Com o avanço das atividades humanas sobre a natureza, desde 1990 está desaparecendo uma espécie por dia.

As estimativas para o futuro são ainda mais estarrecedoras. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos.

Quando pensamos que toda a atividade humana se desenvolve dentro da ecosfera (dividida em quatro camadas: atmosfera, biosfera, hidrosfera e litosfera), nos damos conta da real e intrínseca dependência que temos da natureza, quando dela extraímos todos os recursos necessários à produção e, para ela devolvemos resíduos resultantes dessa ação.

Por isso é necessário um cuidado (a palavra “cuidado”, segundo a filologia, deriva do latim cura, termo usado em condições de amor e de amizade) todo especial para com a biodiversidade, bem como em relação ao planeta que nos abriga.

Para tanto, todas as ações políticas e, principalmente, as econômicas (visto que a economia é o eixo articulador de uma sociedade) deveriam, primeiramente, se pautarem nas premissas dos enunciados ecológicos, expressos na busca da sustentabilidade, ou seja, de uma ação que procura devolver o equilíbrio à Terra e aos ecossistemas; que procura, outrossim, preservar a biodiversidade. Sem essa preservação, a vida corre sério risco de desaparecer.

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